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Música, cinema, cinemão e cineminha, futebol sofrido, love parêide, lambanças, livros pra nóis traçar na rede da varanda, uivos pra lua, epicurismo de araque, surf calhorda, mais música, monumentos ao autor desconhecido, mafiosidades e toda sorte de num-seis.
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10.5.03
ENQUANTO ISSO, NA SALA DE JUSTIÇA...
Bem que a Legião do Mal tentou, através dos cadernos Z's da vida, colocar água de canal no chopp dos super-heróis. As falhas na organização da prévia do bloco foram elevadas à enésima potência, dando a impressão a quem não esteve lá(como eu) de uma verdadeira catástrofe. Perguntei aos amigos que lá estiveram e nenhum tinha o mínimo do que se queixar. Grau de insatisfação com a festa: zero. Fiquei cabreiro e fui saber da pré-folia de outros amigos, freqüentadores de bailes e prévias mais tradicionais. Os problemas(entrada, ingresso, bebida, etc) me pareceram os mesmos de sempre. Os mesmos de quando eu era moleque, com um lenço enfiado na boca e um colar havaiano de meia pataca, levando fora das meninas mais velhas, fazendo vergonha no salão.
O mal-estar provocado pela desorganização da festa do bloco inspirado nos super-heróis, em Olinda, ainda repercute. Repercutiu? Onde? Putaqueupariu... Qual é o pó? O bloco ficou grande demais? E daí? Pra ser legal tem que excluir quem não é descolado? Ah... Tem que ter mais organização... Que tal fazer a próxima festa no Classic Hell... ô... foi mal... no Classic Hall.
Voltar a fazer festinha pr'os amigos, nada de prévias, acabar com o bloco e aceitar as sempre oportunas sugestões da imprensa. Que idéias do caralho...
A festa tem é que ser três vezes maior, pra não ficar um super de fora. De resto, a Suécia, especialmente Estocolmo, é um lugar maravilhoso pra se passar o mês de fevereiro sem nenhum atropelo, nenhum mal-estar.
Agora o domingo.
Que dia quente. Cheguei às oito e pouco, feliz por ainda estar sem a fantasia. A concentração do bloco - naquela curvinha entre a Sé e a Academia Santa Gertrudes - ainda estava bem diluída, com meia dúzia de supers dormindo. Tava rolando missa na Igreja da academia. Lá ver. Essa missa tem uma freirinha que toca um órgão genial(sem trocadilhos, mente abominável), que lembra até certas passagens daquele insuportável disco de Rick Wakeman, um tal de viagem ao centro da terra(Julio Verne deve ter ficado com a macaca). Contudo, no ambiente camerístico da igreja, entre a pregação mansa do padre e o nosso coro-resposta, não haveria melhor prelúdio para uma manhã de carnaval(epa... Manhã de Carnaval... É favor procurar no Kazaa a versão de Baden Powell, talvez o único capaz de rivalizar com a freirinha).
Vesti a fantasia lá no pé da Misericórdia, numa casa amiga, e voltei. Subir essa ladeira é fundamental. A promessa que se paga todo carnaval.
Uma, duas, três, quatro doses de Pitú a um(!!!) real. Um giro pela concentração. Uma, doas, trêis, cotro dose de Pitú-com-mel-e-limão a cinqüenta çentávus, na merma barraca... (epa, tem treta aí...)
Tava nessa cana, distraído, procurando gentes conhecidas(desgarrei-me do rebanho nessa primeira etapa), quando ele surgiu. Foi após o oitavo real gasto com Pitú. Assim, sem aviso. De repente, o Super Gente Fina estava no comando e eu, como num antigo gibi da Marvel, apenas participava como espectador, espécie de mentor espectral dele e do meu próprio corpo. Enquanto o fela da gaita aprontava e se divertia, restava-me outra fantasia, a de super-ego. E a concentração rolando... (sempre achei que seu significado num bloco era o de atingir um foco, uma mentalização coletiva... da banda, do público, da organização, etc, como um time de futebol nos dias que antecedem um clássico. Qual nada, significa concentração humana mesmo, aumento de densidade populacional. O tempo pra todo mundo chegar e não o tempo pra aquecer)
A concentração é sempre o melhor da festa, descontado o ano passado, quando uma chuva torrencial na descida da ladeira de São Franciso proporcionou aquele que talvez seja o melhor momento do bloco, certamente, um dos dez momentos mágicos do século XXI, como dirá o Le Monde lá pra 2098, 2099. Não consegui reconhecer novos heróis, mas posso dizer que eles estavam lá, aos montes. Uns sem capas, outros sem fantasia, muitos revelando suas identidades secretas. Em comum, a ambiciosa missão de salvar o Carnaval. E íamos assim, deixando-nos arrastar aos montes, fazendo mesuras, agitando as perucas, misturando as cores, meio arrependidos de termos deixado nossas pistolas d'água em casa. O calor tava foda, de rachar a pele. Tão quente que dava a certeza de uma compensação em forma de chuva, logo adiante, na curva da ladeira. Foi quando me liguei que São Pedro também tava ali com a gente, fantasiado de Michelangelo, uma Tartaruga Ninja meio encurvada, pedindo pra levar coelhada de uma Mônica bonita pra danar que seguia ao lado do Lanterna Verde. Entre duas anjinhas, o porteiro do céu berrava: Olinda quero cantaaaar... a ti (tan-nan-nan nan-nan-nan)... essa canção(pan-ran-ran-ran-ran-ran-ran) Teus coqueirAIS, o teu SOL, o teu MAR faz vibrar meu coraÇÃO, de aMOR, a sonhAR, minha Olinda sem iguaaaal, salve o teeu carnavaaal... (pan-ran-pan-pan) (pan-pan) (pan-pan) (pan-ran-ran pan-ran-ran pan-ran-ran-ran...)
Claro que não choveu.
tatarecords@mail.com 05:25
Postado originalmente em 13/03/2003
tatarecords@mail.com
00:56
FAMILIARIDADE
Um recifense
a primeira coisa que faz
é se adaptar
ao mais previsível pequeno destino
possível
- assim como quem sabe
que vai avistar
os mesmos mendigos
nas mesmas esquinas
da cidade
que o acostumou já
à visão das chagas de um
- como à aparente saúde de outro -
pois os pequenos destinos
curiosamente se combinam
com os familiares pedintes
para definir,
cedo ou tarde,
o que faz um recifense
ser do Recife.
Fernando Monteiro, sem rodeios.
tatarecords@mail.com 13:06
COSMETOLOGY'S GONE
(ou COBRINDO O UMBIGO)
Neste exato momento, milhares de blogueiros com coisas mais importantes para fazer(lembra de todas aquelas suas pendências?), ampliam seus domínios, contam suas histórias, trocam bilhetes como os habitantes de uma cidade invisível de Calvino, lêem, se lêem, tudo sem fazer barulho. The revolution will not be televised, brotha. É, Gil Scott, grande Hero(n), mas a diferença é que é bom pra danar, esse lance de blog. Tão bom que nem vale a pena considerar sobre.
É isso aí. Ir pro blogger.com, meter a senha na caixinha, esperar abrir, tocar teclado de churrascaria por meia hora, ir pra cama...
Agora sim, eu vou.
tatarecords@mail.com 00:20
Postados originalmente em 12/03/2003
tatarecords@mail.com
00:53
COSMETOLOGY SUCKS
É fodinha... Neste exato momento, milhares de blogueiros, com coisas mais importantes para fazer, como uma aula de cosméticos(viadagem pura, negócio pra se ministrar - porque dar também é coisa de boneca - de cara fechada, esperando que a prática de loção pós-barba chegue logo) para o dia seguinte, ampliam seus domínios, trocam bilhetes como os habitantes de alguma das cidades invisíveis de Calvino(que porra é essa que tô escrevendo? Socorro!), lêem para serem lidos(não estou escrevendo isso...), tudo sem fazer barulho. The revolution will not be televised, brotha. Disso eu já sabia, Gil Scott. O que eu não sabia é que é um negócio bom danado de se fazer. Tão bom que nem vale à pena considerar sobre.
É isso aí. Ir pro blogger.com, meter a senha na caixinha, esperar abrir, tocar teclado de churrascaria por meia hora, ir pra cama... Não sem antes terminar aquela aula de cosméticos.
tatarecords@mail.com 23:05
MINHA CRUZ
Santa Cruz 3 x 0 Náutico.
Te cuida, Real Madrid...
tatarecords@mail.com 22:38
PASSWORD
Acordou de um sonho sub-aquático. Tava ouvindo tão mal que pensou ser madrugada o silêncio. Os cabelos em pé, nunca mais os tinha visto assim. Passara do tempo de cortá-los. Viu tentando enxergar lá fora, através do vidro da janela. Apartamento branco. De luzes brancas. Sem estilo. Em branco. Sem marcas, como uma luva de látex
no lugar da mão
Como trocou o dia pela noite, por que acordou de um sonho sub-aquático, quando se deu por vencido, a cor do calção, não se saberá. Cheirava a sono, bath cream. Morreu, tá vivo. Não, não. Tá pra ir de vez. Tá chamando pra dizer alguma coisa no pé do ouvido. Expirou. É uma senha
que serve pra tudo
Todos os seus segredos.
tatarecords@mail.com 22:37
DRUMMONÍACO
Não se mate
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
tatarecords@mail.com 22:12
NINAR
Ouvindo Marquee Moon, do Television; Almanaque, de Chico Buarque; Fuloresta do Samba, de Siba; "Time of the Season", dos Zombies; e uma pá de músicas dos Kinks.
tatarecords@mail.com 02:53
BESTA BESTA
O textículo abaixo é do Encontro Imaginário Entre Um Grego Antigo e Um Padre, de M. M. Mangasarian.
tatarecords@mail.com 01:36
Sonhei
tinha voado
tava montado na força que me comanda...
Mestre Siba, na Fuloresta do Samba
tatarecords@mail.com 01:11
ZÉ PEREIRA
¿Eu tenho hoje vinte e cinco séculos de idade, e estive morto por quase todos esses anos. Meu local de nascimento era Atenas; minha tumba não ficava longe das de Xenofonte e Platão, com vista para a glória alva de Atenas e as águas tremulantes do Mar Egeu.
Após dormir em minha tumba por tantos séculos eu despertei subitamente - não posso dizer como ou por quê - e fui transportado por uma força além de meu controle para este novo dia e esta nova cidade.
Cheguei aqui ao romper do dia, quando o céu ainda estava entorpecido e sonolento. E ao me aproximar da cidade comecei a ouvir o tocar de sinos, e um pouco depois encontrei as ruas agitadas com multidões de pessoas bem vestidas em grupos familiares seguindo seu caminho para lá e para cá. Evidentemente elas não estavam indo para o trabalho, pois eram acompanhadas por suas crianças nos seus melhores trajes, e uma expressão de alegria lhes adornava o rosto.
¿Este deve ser um dia de festa e adoração, devotado a um dos seus deuses¿, murmurei para mim mesmo.¿
Lembrei imediatamente dessa belezura quando, pelas escadarias de Guadalupe, comecei a entrar em Olinda. Do afoxé no pátio da Igreja(pra pegar turista, sim, mas tinha um tim-tim-tum lá que desregulou meu diafragma), passando pelas casinhas do lado mais pobre da Cidade Alta, seguindo pelo largo do Amparo(aquela rave ao ar livre com música estranha e gente esquisita), onde um maluco espancava um kit de bateria muito mais rockafellerskankianamente que o próprio Fat Boy Slim, para deleite dos papudinhos e go-go girls de primeira hora(os verdadeiros funk soul brothers, a galera que bota faixa da Brilux na cabeça e sobe n¿A Porta - afinal, Brilux¿s on the table), até a Bodega do Veio(pizza de massa de pão e cerveja em garrafa gonorantemente gelada com vista pro céu), no pedaço da Rua do Amparo que hoje chamam Dos Artistas, ali, a meio caminho do Museu de Arte Contemporânea, o simpático MAC(lembro do tempo em que chamávamos aquilo de Los Angeles, dada a quantidade de mangue stars, e a curva vizinha, a rua da viadagem, de San Francisco). Mais e mais entrava e ia me arrepiando a ponto de achar que tava com febre. Todo o desânimo da vida sem carná ficou naqueles degraus da Nossa Senhora de Guadalupe.
É gréia, é putaria, batmacumba e samba no pé dos outros, porque ainda bato cabeça como se num show-tosqueira estivesse(seja frevo, roque, funk ou ciranda, a ginga é a mesma. Em time que está ganhando, não se mexe). Pra dizer a verdade, estive muito mais pra olhar as coisas acontecendo do que pra fazer e acontecer, o que também é ducaralho, se as coisas acontecem como se acontecidas por nossa obra e graça.
Que todo mundo vai do jeito que quer, que é tudo muito espontâneo, etc e tal, é até fácil de sacar no Carnaval de Olinda. Agora, o que talvez não dê pra se ligar é a quantidade de surpresas por minuto. Rostos conhecidos, fantasias inusitadas, atitudes inesperadas, bandinhas que surgem do nada e outras mumunhas mais causam tantos sobressaltos que o marca-passo até acostuma e acaba por se perder também.
À noite teve Bonsucesso Samba Clube, uns boas-praças(e só) chamados Baseado em Blues(RJ) e mundo livre s/a. Cumecemo na cerva e acabemo no sushi do outro lado da rua. Senti o peso da idade e vontade de me tornar sócio-fundador do Bloco da Saudade.
Pra fazer uma faxina espiritual e esquecer o sushi-maurício, voltamos no veículo que jurei combater até o fim dos meus dias: uma Kombi de lotação. Tocada por um rasta com cara de baiano e um maloqueiro de uns treze anos, a perua desembarcou a galera do mal no giradouro da PE-15, me deixando só no banco do fundão, logo ocupado por uma família de bêudos e um bêbo sem família. Dez metros depois, um negão com uma faixa na cabeça(mas não da Brilux, tava mais pr¿aquele tripulante da Nostromo de Alien, O Oitavo Passageiro). Sem brincadeira, cada braço do cara ocupava o mesmo espaço que o meu vizinho de banco, o sem-pai-nem-mãe. O caba perguntou antes de entrar: passa no Bandepe de Olinda?. E o maloqueiro: paaassa, fera. Chegando na hora H, Jamaica resolveu pegar outro rumo, deixando o negão furioso. Com três tapinhas que devem ter amassado o teto da Kombi e uma ordem, o cara se fez deixar na ¿porta do Bandepe¿. Jamaica dizia, eu sou da paz, se é pra deixar na porta, eu deixo. E eu me abrindo, com medo de levar porrada dos dois lados. 180o depois, com o negão numa distância segura, começaram os protestos. Passageiros chamando o cara de féla di rapariga, Jamaica emburrado, dando esporro no moleque e o ébrio peso-pena ao meu lado calado, coçando o queixo, pensativo. Tava chegando minha hora quando ele afinal concluiu, com uma cotovelada amiga: diga aí, mago, se fosse eu ou tu, a gente tava a essa hora lá nos Bultrins, indo de pés pro Bandepe... Né não? Diga aí... E concluiu, é... eu vou é tomar bomba... quero ver num me deixarem na porta do Bandepe...
O dia seguinte seria o dia do Enquanto Isso, na Sala de Justiça..., a melhor agremiação carnavalesca livre do mundo! Dormi o sono dos supers, destruindo kombis, salvando donzelas com penachos coloridos, chupando picolé de saquinho na abóbada do Observatório, até dormir dentro do sonho, de barriga pra cima.
tatarecords@mail.com 01:00
Postados originalmente em 11/03/2003
tatarecords@mail.com
00:52
RUN, RUN, RUN
Não perca tempo, vá conhecer esse cara(tudo quanto é mp3), que depois falo mais sobre. É o autor daquele verso lá embaixo, o da doçura das piores coisas. Introducing... John Vanderslice.
Bacanezas dele: Bill Gates Must Die, Time Travel Is Lonely(cada título da gota), The Dream Is Over, My Old Flame, My and My 424, Letting Go, Amitripyline, I Miss The War, Ambition... E por aí vai.
(...)
Pois bem, a foto do Escrete de Ouro não aparece. Admito que falta muito pr'eu entender o que é um Protocolo de Teletransporte não-sei-das-quantas-FTP-do-raio-que-o-parta. E olha que faiz têmpu que erro por aqui. O jeito, enquanto dura o Carná e o mundo faz sentido, é colocar um link daqui pra figurinha lá longe(como diria minha impressora, é favor clicar na imagem). Em pé: Lula, Eduardo, Alfredo, Lenarde, Enrik, Thiago e Cabelo. Agachados: Kekulé, Negão, Léo e Adrianinho. Um time que já aplicou goleadas memoráveis na Seleção do Resto do Mundo.
Agora é hora. Ciao e benção.
A gente trabalha
o ano inteiro
por um momento de sonho pra fazer a fantasia
de rei ou de pirata ou jardineeeira
pra tudo se acabar na quarta-feira...
Super Gente Fina, ativar!
tatarecords@mail.com 11:17
Postado originalmente em 27/02/2003, às vésperas do Carnaval.
tatarecords@mail.com
00:48
DE HOLANDA
Caçada
Tom: C6/9
C6/9 F6
Não conheço seu nome ou paradeiro
Fm6 C6/9
Adivinho seu rastro e cheiro
F6
Vou armado de dentes e coragem
F6 C6/9
Vou morder sua carne selvagem
F6
Varo a noite sem cochilar, aflito
Fm6 C6/9
Amanheço imitando o seu grito
F6
Me aproximo rondando a sua toca
Fm6 C6/9
E ao me ver você me provoca
F6
Você canta a sua agonia louca
Fm6 C6/9
Água me borbulha na boca
F6
Minha presa rugindo sua raça
Fm6 C6/9
Pernas se debatendo e o seu terror
F6 Fm6 E6/7 A7/9- Dm7 G6/7 (Gm7 C7) C6/9
Hoje é o dia da graça, hoje é o dia da caça e do caçador
F6
Eu me espicho no espaço feito um gato
Fm6 C6/9
Pra pegar você, bicho do mato
F6
Saciar a sua avidez mestiça
Fm6 C6/9
Que ao me ver se encolhe e me atiça
F6
E num mesmo impulso me expulsa e abraça
Fm6 C6/9
Nossas peles grudando de suor
F6 Fm6 E6/7 A7/9- Dm7 G6/7 (Gm7 C7) C6/9
Hoje é o dia da graça, hoje é o dia da caça e do caçador
F6
De tocaia fico a espreitar a fera
Fm6 C6/9
Logo dou-lhe o bote certeiro
F6
Já conheço seu dorso de gazela
Fm6 C6/9
Cavalo brabo montado em pelo
F6
Dominante, não se desembaraça
Fm6 C6/9
Ofegante, é dona do seu senhor
F6 Fm6 E6/7 A7/9- Dm7 G6/7 (Gm7 C7) C6/9
Hoje é o dia da graça, hoje é o dia da caça e do caçador
tatarecords@mail.com 01:07
Postado originalmente em 25/02/2003
tatarecords@mail.com
00:42
"There's a sweetness in the worst things"
tatarecords@mail.com 22:08
DESEMPOEIRADA DO DIA
A Tábua de Esmeraldas, que apesar de Solta o Pavão, África Brasil, Negro é Lindo, do segundo disco do Síndico, de Tim Maia Racional Volume I, do Madcap Laughs de Syd Barret, do Lóki de Arnaldo Baptista, das folhas secas de Floresta, do Telescópio Hubble e do elevador de Einstein, continua sendo o melhor meio de viajar pelo Cosmos. Este é um disco pra se ouvir de banho tomado. Ponto.
tatarecords@mail.com 20:16
BIBLIOMANCIA I
Para conseguir que nossas intenções sejam retas e sinceras, devemos atuar de acordo com nossas inclinações naturais.
Confúcio, escrevendo de olhos fechados.
tatarecords@mail.com 19:49
OS ALQUIMISTAS ESTÃO CHEGANDO
Para um farmacêutico, fazer um granulado efervescente é como fritar ovos(bom... na verdade, é como fazer filhoses: fácil, mas com o ponto difícil). Contudo, não há como negar: não tem um que não leve um pouquinho escondido no bolso pra fazer pirotecnias fora do laboratório. Pra evitar que os alunos o utilizem no velho truque do epiléptico, o sábio mestre sempre acrescenta cafeína, pois além da azia desfolhante, há, de quebra, uma desestimulante dor de barriga. E avisa. :o)
tatarecords@mail.com 19:30
Postados originalmente em 24/02/2003
tatarecords@mail.com
00:35
4.5.03
DICK HYMAN E O BAILE
The Moog and Me
Essa música tá lá no site dos pintinhos coloridos. Hyman é um pianista dos 50, 60, 70, 80, 90 e 00 que lançou em 69 um disco enlouquecido chamado Moog: The Electric Eclectics of Dick Hyman. Música de robozinho, bem no brain e e viajada. The Moog and Me, essa que tem lá nos pintinhos, é como se dessem um moog(que é um teclado de churrascaria que a galera estranhamente não acha brega) pra R2-D2. Boa pra dirigir, cozinhar e tomar café. Além do que, um disco que começa com uma música chamada Topless Dancers of Corfu, merece ir pr'aquela lista de discos que levaremos no pós-morte(na verdade, um papelzinho com meia dúzia de anotações, guardado no bolso de dentro do paletó, junto com uma moeda, pro caso de haver um Caronte mesmo, e do bicho num ser muito de brincadeira), na esperança de estar tudinho lá, na discoteca/biblioteca chamada Universo(além do Universo, o paraíso tem campo de futebol society, com banho gelado de bica e cerveja com amendoim depois, uma réplica da praia de Maracaípe, viagem quinzenal com tudo pago pra Fernando de Noronha, um bairro comercial onde as ruas de Florença se confundem com as ruas de Dublin, que são as ruas de Barcelona, que beiram o Tâmisa, de onde pode-se descer uma ladeira pendurado num bondinho, sobre um pacífico brilhante, com um maço de livros de bolso dos sebos de Buenos Aires, isso, sem nunca perder a hora pra uma sessão de cinema na Fundação, a poucos quilômetros dos cafés de Parigi, que ficam numa transversal da Moeda.O paraíso também tem telefones e correios, por onde mantemos contato todos os dias, aconchegados em nossos paraísos. Encontros só são permitidos quando chove e faz sol ao mesmo tempo, o que quase sempre acontece, porque tem quem goste muito de chuva e quem goste muito de sol, além dos que gostam muito de ambos). É, se esse disco existir, tá lá. Não que seja uma obra-prima, mas porque aqui, em vida, é difícil cruzar com essas raridades.
Duvido muito que toquem The Moog and Me no baile de formatura de logo mais... :o)
tatarecords@mail.com 22:32
Postado originalmente em 22/02/2003
tatarecords@mail.com
15:15
O COMPUTADOR LIBERTA MAIS DO QUE A GUITARRA
Cá entre nós, guitarra é um saco, um lixo trinta mil vezes reciclado. Preferência de zumbis pseudo-românticos com grande tendência ao onanismo.
Bom, agora que cê deve estar emputecidamente prestando atenção nesse texto, sinto-me mais à vontade pra dividir contigo uma digressão de hoje de manhã. Lembra da importância da guitarra no pós-guerra? E a importância da guitarra para toda a Segunda metade planetária do século XX? Lembra dos movimentos contra e pró guitarra elétrica na música brasileira, na belezura libertadora de tocar uma guitarra imaginária(rápida e anglofonicamente batizada de air guitar - a propósito, air guitar é o cacete) no quarto ou naquele show-desbunde daquela banda que reinventou o rock¿n¿roll, ali, perto da sua casa? Você nunca quis ser um(a) deus(a) da guitarra? Nunca pensou em tacar fogo nela, pedir a benção a Jimi e se danar na platéia? O baixista é um guitarrista frustrado. O tecladista é um guitarrista frustrado. E o baterista... Bom, à exceção do espertíssimo Phil Collins, baterista não tem cérebro. A guitarra, na sua perfeição anatômica, com sua aparente docilidade e generosidade com principiantes, com seus precinhos camaradas, sua estreita relação com o violão(o fusca dos instrumentos musicais) e seu poder de fogo inigualável, é um dos sete objetos do século XX, pau-a-pau com os óculos escuros, ali, pertinho da televisão. A guitarra, vá por mim, já libertou muita gente.
É fruto de uma linha evolutiva de instrumentos de corda pra se meter o dedo, que nem a harpa lá nos grotões arcádicos. Já foi lira de incendiário(é mermo, esse lance do fogo é coisa de pele...), alaúde, viola, banjo, violão, o escambau. Eletrizou-se como poucos, caiu nas graças da indústria e soube ser produzida em série numa boa. Vibrando-lhes as cordas, pressionando as casas certas ¿ tudo com os dedos ¿ a humanidade ganhou mais uma linguagem.
Pois é, já teve muito zé ruela torcendo o nariz pra música produzida pela guitarra. Lance bem parecido com o que acontece com os computadores de hoje. A tecnologia que remodelou e eletrificou a lira, transforma agora todos os movimentos da guitarra em zeros e uns, cria interfaces agradáveis, auto-explicativas, que substituem as gloriosas e delgadas cordas por teclas ainda quadradas. O poder do fogo ainda sob os dedos, só que mais condensado. Um prazer ainda mais solitário do que tocar guitarra, porque há uma banda imaginária(air band?) que obedece milimétrica e cegamente ao comando desse outro jovem, que se liberta com um computador. Porra, libertar de quê, Seu Presidente da Funai? Libertar-se do mundo, Raoni, que continua abestalhado como dantes. Que continua dado a incomodar os jovens como antes. Aqueles que sabem ser o computador o filho bastardo da guitarra, contestado, fonte de um prazer solitário, do tipo que comunga avidamente com a sozinhez de outros jovens perdidos no mundo, ainda que em silêncio, contraditório como o próprio fogo é, com seus claros e escuros. Nada que um purista, que é uma espécie de reencarnação de inquisidor, vá entender ou aceitar. Nada que a malta de má fé vá considerar mais do que música eletrônica, ou pior, techno. Nada que faça os escrevinhadores remunerados deixarem a preguiça e a nostalgia de lado. Não, essa criança ainda vai penar muito.
Eu tava a fim de levar a sério a idéia de que ¿O COMPUTADOR LIBERTA MAIS DO QUE A GUITARRA¿, mas seria mentira, empulhação de caba metido a besta, polêmica sem luz. Num liberta mais-que, não, mas ainda tem muita história boa pra escrever e contar. Como diria Rick, o que deixou a Ilsa ir embora, ¿este é o começo de uma bela amizade¿.
Dedicado ao Eniac e à Gibson de dois braços de Jimmy Page.
tatarecords@mail.com 17:19
Postado originalmente em 21/02/2003
tatarecords@mail.com
14:38
TURNTABLISM
É aquela técnica de fazer música com as porções certas de outras tantas músicas. Um prazer sem medida pra quem compõe, esse de enfileirar, sobrepondo e filigranando com massinha de modelar os muitos tesouros da era do vinil. A capa do hoje clássico Endtroducing, do DJ Shadow, diz tudo: pessoas numa loja de discos buscando o sentido da vida(ler Melômanos Anônimos).
Em blogs, cortando e encaixando textos, serve na falta de tempo, num tipo ainda não catalogado de mudez e como exercício estético(p o r q u e n ã o ?).
Esse meu caso é falta de tempo mesmo(e certeza de que não teria nada melhor a dizer).
tatarecords@mail.com 23:28
SALADA DA SEMANA
Amares
Nos amávamos rodando pelo espaço e éramos uma bolinha de carne saborosa e suculenta, uma única bolinha quente que resplandecia e jorrava aromas e vapores enquanto dava voltas e voltas pelo sonho de Helena e pelo espaço infinito e rodando caía, suavemente caía, até parar no fundo de uma grande salada. E lá ficava, aquela bolinha que éramos ela e eu; e lá no fundo da salada víamos o céu. Surgíamos a duras penas através da folhagem cerrada das alfaces, dos ramos de aipo e do bosque de salsa, e conseguíamos ver algumas estrelas que andavam navegando no mais distante da noite.
Eduardo Galeano, no livro Mulheres.
tatarecords@mail.com 23:16
Postados originalmente em 19/02/3003
tatarecords@mail.com
14:35
nada de novo, baby
depois que te amei.
meu apartamento é branco
iluminado
limpo
os dias mais tristes são os mais lindos.
Maria Rita Kehl
tatarecords@mail.com 03:33
MELÔMANOS ANÔNIMOS
Sinto a necessidade de fundar a associação sem fins lucrativos que dá título a esta coluna. Depois dos Alcoólicos Anônimos, dos Neuróticos Anônimos, dos Chocólatras Anônimos, sei lá, dos Tímidos Anônimos, é chegada a hora dos Melômanos Anônimos. Percebo em mim mesmo - e em alguns amigos e conhecidos ainda alheios a seu triste estado de degradação existencial - a compulsão de consumir CDs, LPs, K7s, MP3s, shows e/ou concertos, com sofreguidão, como quem neles procura o sentido da vida. Pois bem, admito: eu procuro o sentido da vida em discos. Não nos objetos, mas na música que eles divulgam. Como um personagem de Woody Allen que não entende iídiche, escutei qual é o sentido mas não o pude fixar, muito menos entender. Ele está ali e, súbito, no compasso seguinte, já não está. Ficamos brincando de esconde-esconde entre pilhas de CDs, eu e o sentido da vida.
Comecei a suspeitar que minha melomania branda havia degenerado numa forma mais virulenta, quando, nos últimos dois anos, em férias, passei a perder preciosas horas de sol e descanso, de cerveja preta e mar azul, tenso entre estantes, tentando decifrar qual disco dos Dubliners ou do Haïnides apaziguaria minh¿alma atormentada. O que deveria ser um ato prazeroso por vezes se transformava numa escolha de Sofia, angustiosa.
Quando em dias úteis (digressão: curioso complexo de culpa o nosso que considera inúteis os dias de lazer, ócio e prazer), então, aí mesmo é que as visitas às lojas de discos são hipertensas, uma opção que pode fazer toda a diferença do mundo entre dormir em paz ou não. Faço uma ronda metódica e neurótica, profissional e pessoal, por Berinjela, Billboard, Halley, Modern Sound, Tracks, e também não resisto a promoções tipo "três por R$ 21" nessas lojas furrecas de shopping. Outro dia, por exemplo, comprei "Mutations", do Beck, por R$ 7. Mas o sentido da vida não estava ali.
Entenda, caro leitor, sou doente, acabo de comprar o Beck, mas, inseguro de minha escolha, saio da loja pensando nas alternativas descartadas, como se, num universo paralelo, eu pudesse ser feliz. Até sonho com isso. Tenho dois sonhos recorrentes. Um na verdade é um pesadelo: estou numa loja e reviro empolgado estantes impossíveis, borgeanas, cheias de discos que não existem e, portanto, jamais ouvirei. Acordo frustrado. Outro é sonho sim: estou boiando além da arrebentação, sentindo as ondas passarem por baixo de mim, à espera da onda perfeita. Apesar de se tratar de uma espera, não há angústia envolvida. Ficar balançando (sinto isso!) naquele marzão besta, naquele líquido amniótico arquetípico, é reconfortante. Acordo pacificado. Os dois sonhos, o mau e o bom, se alternam, infinitamente, não há analista que dê jeito.
Quando eu tinha 20 anos, achava que gostaria de rock até os 30. Depois, ou teria metido uma bala na cabeça ou passaria a gostar de jazz. Gostaria de jazz até os 40. Depois, ou teria tido um infarto fulminante ou passaria a gostar de música clássica. Gostaria de música clássica até os 50. Depois... Bem não acredito que um dia vá passar dos 50, não torcendo pelo Botafogo. De qualquer forma, aos 20, eu era metódico assim, neurótico assim, ainda mais que hoje. Contudo, algo, o imponderável ou Mozart, não estou bem certo, surgiu-me aos 20 e poucos e meu planejamento estético foi para as cucuias. The Clash, Villa-Lobos, Bill Evans, Cartola, Arnaldo Baptista, Purcell, Baden Powell, Robert Johnson, todos se embaralharam na minha cabeça, todos me disseram qual o sentido da vida. Nunca, no entanto, por tempo bastante para compreendê-lo. Era voltar o disco para aquele ponto em que Greg Allman canta "Melissa" sustentado pela guitarra de Dickey Betts e ver que o sentido da vida já não estava ali. Ou melhor, ele continua ali, entre o verso "again the morning¿s come" e o verso "again he's on the run". Mas minha chance de alcançá-lo já passou. Só resta tentar encurralá-lo noutra música.
Tentar. Tentei de tudo. Quanto mais acho que sei, com certeza menos sei, paradoxo socrático. O Free levando ao Bad Company, este ao Humble Pie, este ao Mott the Hoople, Ian Hunter, Paul Rodgers, brincadeira sem fim. Como Maradona, já tentei todo tipo de tratamento, inclusive em Cuba. "Buena Vista Social Club", o projeto de Ry Cooder, me abriu os ouvidos para olvidados como Rubén González, Ibrahim Ferrer, Compay Segundo. Durante semanas o sentido da vida esteve ali. Depois emigrou, mas não para Miami. Para a Índia ou, ao menos, a Índia transplantada para a Grã-Bretanha por Asian Dub Foundation, Tavin Singh, Cornershop. Posteriormente, para velhos roqueiros progressivos italianos, como Premiata Forneria Marconi e Le Orme. No meio do caminho, uma Marisa Monte regravando Paulinho da Viola. E um fadista português chamado Paulo Bragança, maravilhoso. Continuo tentando de tudo.
Talvez a paz só seja encontrada no ato da busca.
***
Esta coluna é dedicada a outro sujeito que sonhou com LPs e ondas perdidas: Carlos Roberto Schmohl de Montes, o Alemão, sócio-fundador da Associação de Surfe de Peito do Posto Cinco, mito na área. A essa altura ele deve estar despencando com o beach boy Dennis Wilson, lá onde as ondas são eternas. Auf Wiedersehen, nos vemos.
Arthur, o Dapiéve, n'O Globo.
tatarecords@mail.com 03:26
A SALVAÇÃO PELO OUVIDO MÉDIO
É claro que eu entendo as pessoas que desprezam a música pop. Sei que muita coisa do mundo pop, a maior parte até, é lixo, sem imaginação, realizada porcamente, produzida nas coxas, repetitiva e infantilóide (embora pelo menos quatro dos adjetivos acima possam ser usados para descrever os incessantes ataques ao pop que você pode achar em importantes jornais e revistas).
E sei também, acredite, que Cole Porter foi "melhor" que Madonna ou Travis. Que a maioria das canções pop são cinicamente direcionadas para um público-alvo três décadas mais jovens que eu. Que tudo de bom no pop foi feito a 35, 25, 15 anos atrás. E que pouca coisa de valor na pop music foi feita, desde então.
Mas é que de repente tem essa canção que eu ouvi na rádio, e que depois eu comprei o CD, e agora eu tenho de ouvi-la dez ou 15 vezes por dia...
É isso que me intriga sobre os de vocês que acham que o pop atual é uma coisa abaixo de você, atrás de você ou além de você (uso pop aqui para englobar soul, reggae, country, rock... qualquer coisa que você possa achar que é lixo).
Será que você nunca ouviu ou pelo menos nunca se viu atraído por canções novas? Será que tudo o que você cantarola no chuveiro foi feito anos, décadas, séculos atrás?
Você realmente se priva do prazer de se entregar a uma boa nova canção pop porque isso pode manchar sua fama de conhecedor de Foucault?
Então. A canção que tem me enchido de prazer recentemente é "I'm Like a Bird", da Nelly Furtado. Só a história vai dizer se ela irá se transformar em uma cantora famosa. E, embora eu suspeite que ela não vá mudar o jeito de as pessoas olharem o mundo, não posso dizer que eu esteja muito preocupado com isso.
O fato é que eu sempre serei grato a Nelly Furtado por criar em mim esse narcótico efeito de me fazer ouvir sua canção again e again. Não quero criar um caso com essa música, "I'm Like a Bird", nem compará-la com qualquer outra _embora aconteça de eu pensar que ela é uma canção pop muito boa, que transmite uma sensação gostosa de sonho, vem marcada por um certo otimismo que, quando tocada em rádio, por exemplo, a diferencia imediatamente das músicas anêmicas que possam vir antes ou depois.
O ponto é que há poucos meses a canção não existia e agora ela está aí. E que ela, em um mundo delimitado, é um pequeno milagre.
Algumas vezes no ano, eu gravo uma fita para tocar no carro. Uma fita cheia com essas novas canções que eu fui amando nos meses que antecederam a gravação. Toda vez que eu terminava uma fita, nunca acreditei que fosse gravar uma outra. Mas sempre vai existir a próxima, e mal posso esperar por ela. Um punhado de canções novas como "I'm Like a Bird" e você terá uma vida que valha a pena ser vivida.
Texto de Nick, o Hornby, publicado na Granta.
tatarecords@mail.com 03:21
AD INFINITUM
Eu tava triste, tristinho
mais sem graça que a top model magrela
na passarela
eu tava só, sozinho
mais solitário que um paulistano
que um canastrão na hora que cai o pano
tava mais bobo que banda de rock
que um palhaço do Circo Vostok
mas ontem eu recebi um telegrama
era você de Aracaju ou do Alabama
dizendo
nego, sinta-se feliz
porque no mundo tem alguém que diz
que muito te ama
que tanto te ama
por isso hoje eu acordei com uma vontade danada
de mandar flores ao delegado
de bater na porta do vizinho e desejar bom dia
de beijar o português da padaria
Zeca, o Baleiro, em Telegrama.
tatarecords@mail.com 03:06
Postados originalmente em 18/02/2003
tatarecords@mail.com
14:34
TATÁ RECORDS
Lunarossa, banda recifense de surf music eletrônica, é a principal banda do seleto staff da Tatá Records. Acaba de lançar seu primeiro álbum, Meus Documentos(apanhado de singles lançados entre 1999 e 2003), o Disco do Ano segundo New Musical Express, Spin, Rolling Stone, G Magazine e Caras.
Mañana é a próxima grande promessa do rock'n'roll. O primeiro disco deste caymmiano duo ainda é um mistério guardado a sete cadeados, mas seus prestigiosos shows acústicos têm despertado a cobiça dos tubarões da indústria, e de Boa Viagem também.
A obscura Nebulosa em Espiral dos Cães de Caça, lançou apenas um single pela Tatá Records e sumiu em sua própria nebulosidade. Ascese Acústica Anônima fez relativo sucesso entre a comunidade amish da vila francesa de Neuville-de-Poitou, situada perto de Poitiers, na região de Poitou-Charentes.
tatarecords@mail.com 11:29
MALA X MALA
Fim de semana de Pré-Cajú. Um desses carnavais fora de hora, pertinho de você.
O Recife acordou, deu bom dia, encontrou todo povo nas ruas, nas pontes, nas praças, se amando, se encontrando com alegria, num eterno gingado de frevo, criando e baião, batida de coco, maracujá e limão. Vem, vem, vem cá fazer parte desse cordão, Recife tem um lugar pra você dentro do coração.
Vou sim. Chego já.
tatarecords@mail.com 11:09
TENTANDO ENTENDER AS MULHERES
corte de cabelos para ficar triste
Tipo faça-você-mesma. Trabalho incansável.
Pode durar uma noite -- ou mais -- fio por fio --
a memória na ponta da tesoura,
obcecada,
Medo crescente. Medo até a paixão.
Ou até conferir pelo espelho:
aquela lá morreu mesmo.
Maria Rita Khel
tatarecords@mail.com 02:53
O AMOR ACABA
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Paulo Mendes Campos
tatarecords@mail.com 02:20
Postados originalmente em 13/02/2003
tatarecords@mail.com
14:27
VOCAÇÃO PRA PÁRA-CHOQUE
Não acredito em ninguém mais silencioso do que eu.
tatarecords@mail.com 14:19
Postado originalmente em 11/02/2003
tatarecords@mail.com
14:25
2.5.03
PROJETO BRIAN WILSON
O QUE É? Um megaprojeto de vida. Consiste basicamente em aprender, perto dos trinta, a surfar.
MAS COMO? Depois de várias tentativas frustradas e humilhantes, uma comissão de surfistas um pouco menos calhordas detectou as falhas, sugerindo correções imediatas.
FALHA 1: Surfista calhorda remando com os pés dentro d'água, como quilhas.
CORREÇÃO: Tira o pé da água, porra!
FALHA 2: Surfista calhorda não consegue nem ficar de quatro sobre a long board.
CORREÇÃO: Não segura nos lados, animal! Tem que se apoiar colocando as palmas das mãos sobre a prancha, e não do lado...
FALHA 3: Ondas esquisitas atormentam o surfista calhorda.
CORREÇÃO: Sai do raso, retardado!
FALHA 4: Surfista calhorda não consegue pegar 90% das ondas.
CORREÇÃO: Tem que remar com força! Mais rápido.
FALHA 5: De quatro, ajoelhado, corcunda de Notre Damme... Mas nunca homo erectus.
CORREÇÃO: Fica morto remando, não tem mais força pra se levantar na prancha. Tem que ganhar resistência e força nos braços.
IDÉIA DO SURFISTA CALHORDA: Vou malhar... Sim, porque a Falha 4 e a Falha 5 só podem ser corrigidas com resistência e força nos braços. E apesar de sempre ter me achado superpoderoso, vejo que só tenho a casca.
SOBRE O NOME DO PROJETO
Pensei em Projeto Dick Dale ou Projeto Ventures. Mas além de Brian Wilson ser musicalmente superior, acho que o shape dele, que nunca surfou de verdade, condiz mais com a minha buchuda realidade. Portanto, inicio-me assim, peixe-fora-d'água, mas cheio de lirismo.
AS DIFICULDADES
Pra começo de conversa, malhar é coisa de viado com i. Não tem coisa mais sem célebro do que levantar peso se olhando no espelho e ouvindo música ruim. Os aparelhos são incompreensíveis, lembrando desagradavelmente instrumentos da Inquisição. E o pior é todo mundo com cara de quem tá escovando os dentes ou cumprindo qualquer outra formalidade doméstica. É apavorante.
O que me mantém firme e forte é a praia de Maracaípe. Thiago e Frei disseram que tá ducaralho, altas ondas(Nota: lembrar de aprender a falar fluentemente o dialeto hangloosiano). Estar lá sobre um pranchão é o que me faz suportar, pois, os momentos de tortura intensa.
O PRIMEIRO DIA:
Comecei numa quinta(30 de Januário de Dois Militrês). Fizeram avaliação detalhada, mediram tudo quanto é parte minha: peito, alcatra, paleta, acém, patinho, contra-filé, maminha, lagarto, chã-de-fora, fraldinha, picanha. Impressionante. Teve também um baita dum questionário, que me fez perceber o quanto é bom não ser saudável: sal, cerveja, sedentarismo, peladas sem aquecimento prévio, cigarro uma vez perdida, açúcar sempre e nunca adoçante, nenhum check-up, estética renascentista.... Querem acabar com o mundo.
O difícil foi fazer acreditarem no Projeto Brian Wilson. Mas no final, estava lá na ficha, "condicionamento e força no não-sei-o-que superior". "Não quer ganhar massa"(Sim Johnny Bravo é o meu mestre, mas o que admiro mesmo nele é a inteligência). Perfeito.
Comecei com vinte minutos de bicicleta e já fui fazendo vergonha: Faltando uns dois minutos, não sentindo mais nada da cintura pra baixo, deixei o pé direito escapar do pedal e foi um deus-nos-acuda. Fez um barulhão e um hematoma na canela. Tudo bem, galera, foi a bicicleta. Não usem, que ela tá com defeito.
O melhor exercício, disparado, foi bater asas com uns pesinhos. Músculos obscuros surgiram das profundezas dos ombros, formando feixes que deixariam Victor Mature com inveja e Dalila louca por mim. É aí que a gente percebe que existe lógica no negócio todo, uma certa arte. Cada instrumento de tortura visa um músculo ou par de músculos específico. O caba chega dizendo onde quer se atrofiar e preparam um circuito de aparelhos só pra ele. Incríve.
Conselho: não se meta a besta. Aceite tudo que os instrutores dizem e não se empolgue. Principalmente no primeiro dia.
tatarecords@mail.com 23:51
Eva, me leva
Pro paraíso agora
Se estou com muita roupa
Eu jogo a roupa fora
(Eva, de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira)
tatarecords@mail.com 02:21
Postados originalmente em 10/02/2003
tatarecords@mail.com
22:59
SALVEM YAMANDU
Engraçado esse menino do violão. É um virtuose, só surdo ou maluco dirá o contrário. O que ele faz com seu instrumento é pra embasbacar mesmo. E é por isso mesmo que aguardo ansiosamente o momento no qual ele se transformará num artista de verdade. Tá faltando alma, soul, o Indefinível em sua músca, e a técnica impecável ajuda a denunciar isso mais que nunca. Não adianta percorrer todas as escalas de trás pra frente na velocidade da luz e extrair sons das partes mais inusitadas do seu violão clássico. Fosse dono de gravadora, mecenas ou algo que o valha, daria um jeito de acelerar o processo, investindo mais nos ouvidos e menos nos dedos dele. Django Reindhardt, Baden Powell, Elomar, os violeiros de norte a sul do Brasil, os calejados músicos da noite e seus repertórios ortodoxos; livros como Lavoura Arcaica, amigos que atuassem em áreas afins e que trocassem impressões artísticas como quem filosofa num bar, críticos e colegas que o confrontassem. Enfim, investir na sua formação de gente. Pretensão pura, mas vai que o cara toma gosto pela coisa. Esse cara tem que largar logo a punheta e partir pro vamo ver. Lembrando que punheta é legal, mas pra quem num faz ou num quer fazer arte, porque nessa seara não dá pra ser estéril. É um desperdício. Como diria o Tio Ben, grandes poderes implicam em grandes responsabilidades. Uh... ;o)
tatarecords@mail.com 00:36
Postado originalmente em 09/02/2003
tatarecords@mail.com
22:47
10 PREVISÕES
Previsão 1: Felipão vai se dar mal em Portugal.
Previsão 2: Um filme americano irá vencer ao Oscar de melhor filme.
Previsão 3: O Santa Cruz será eliminado pela fortíssima equipa(aproveitando o Felipão aí em cima) do Corínthians de... Onde mesmo?
Previsão 4: Conseguirei surfar de verdade em Julho desse ano.
Previsão 5: Não aceitarei participar da etapa mundial em Maracaípe, pois não vejo o surfe como competição.
Previsão 6: Acho que desta feita Saddam toma no caneco.
Previsão 7: Isso num vai sair barato.
Previsão 8: Paulo Coelho lançará sua obra-prima. Nada de misticismo. Coisa séria, dessa vez.
Previsão 9: Os Tribalistas vão desfilar em cima de trio elétrico no carnaval de Salvador.
Previsão 10: A galera do PFL vai se jogar no ventilador.
tatarecords@mail.com 18:27
SALADA DE ACAMPAMENTO
Manga cortada em fatias bem finas, alface, rúcula, kani e berinjela em conserva. Mistura sem critério(não exagera a ponto de deixar o mato em cima, cobrindo tudo) e voilá. A arte: deixa as folhas de alface num laguinho raso de azeite, pouquinho mesmo. Eu coloco sal aí, mas vai ao gosto de quem prepara. Coisa de meia hora. Depois deixa secando na maresia. Aí sim, "mistura tudo". Só presta pra comer enchendo a boca. Semana que vem, rabo-de-galo.
tatarecords@mail.com 18:09
Postados originalmente em 08/02/2003
tatarecords@mail.com
22:46
AQUELE BOTÃOZINHO CHAMADO SHUFFLE
Some Velvet Morning - Nancy Sinatra e Lee Hazlewood. O dueto da filha de Sinatra com o compositor e cowboy de timbre profundo(é o que dá pra dizer de quem é meio aparentado de gentes como Johnny Cash e os Tindersticks) é um dos achados dos anos sessenta. Ele numa levada western, com ecos de canyon, ela numa valsinha de jardim, alternando firmeza e doçura excessiva. Não sei como Frank pai, que era meio Valadão, deixou passar essa descarada sedução de menores. Vai ver confiava no cowboy.
A versão com o Vanilla Fudge também é ducaralho(imagine que a música ganhou aquele ar épico setentão, meio Deep Purple em Child in Time, meio Janis em Summertime, meio Zombies). Como diria meu pai, bem esparramada.
Cê já ouviu Bohemian Rhapsody com Laureen Hill? Num tem a guitarreira-de-batê-cabeça do Quanto Mais Idiota Melhor, mas tem níve.
A assombrada I Hear Voices, do assombroso Screaming Jay Hawkins, aquele que put um spell on you.
Uh... Johnny Cash traçando Mercy Seat do Seu Nick Caverna. Um é o capeta, o outro é Moisés depois da sarça flamejante. De deixar Charlton Heston com vergonha. Olhe, quando o hômi diz que num tá com medo de morrer na fritadeira penal yankee, num tem quem duvide.
Epilético(sic), crássico do Doiseu Mindoisema. Gravado num quarto, junto com a irmã pirralha e o filho pirralha da empregada, que fizeram os geniais backings. Dizem que tinha até cachorro na mítica session. Sente um pedaço da letra: "...o desencontro da noite anterior/ não foi orgulho, nem falta de amor/ papai e mamãe já tinham ido deitar/ e foi então que comecei a babar/ um swing louco no chão eu dancei/ na epilepsia, meu bem, eu sou reeeei... Epilético, epilético/ por favor chame um médico..." Totalmente sem loção.
Saddam a Go Go, do Gwar. Só pelo título já tá valendo.
Faça tudo nessa vida, mas num se deixe morrer sem antes escutar o Led Zeppelin botando pra arrombar ao vivo com Light My Fire.
Que tal ressucitarem Organ Donor nos salões? O DJ Shadow é o verdadeiro Kid Vinil.
Back to (Marco) Zero:
Badminton é também nome de banda. Têm um disco inteirinho lá no mp3.com, chama-se Petroliana. Lembro dos caras em Olinda, há uns dez anos. Dos poucos que não "reviram seus conceitos" pra se adequar ao mangue bit e beat. Claro que, nessa toada, não deixaram de pertencer legitimamente à flora e fauna da lama, cujo conceito parece ser apenas compreendido num raio de trinta quilômetros a partir do Hospital da Restauração(meu terceiro epicentro a partir de agora. Além do Marco, o Hospital Português é, por motivos pessoais, também um ponto de partida). Macaqueavam Pixies, Nirvana, Sonic Youth e o escambau. Hoje não. Dizem que fazem alt country e até surf music, mas num tem nada muito disso, não. Fazem rockão alternativo dos bons, cantado em inglês americano com sotaque da Carolina do Norte. Money Pile lembra Dinosaur Jr nos bons tempos. E Let Me Surf bota esses baitolas melódicos no chinelo. Disco com sustança.
Quero ser o primeiro homem na lua a dizer que o trabalho novo de China é bom, mas muito bom(sendo muito bom, pouco). Ele era o vocalista do Sheik Tosado, uma banda que acabou sem ter explorado um, dezesseis avos do seu potencial. China tá com três músicas prontas(bom, como ouvi em dezembro, posso estar bastante enganado quanto ao número de músicas novas). "Cristalino" tem um tanto do som que já se pode dizer característico de Recife, mais pras bandas de Piedade do mundo livre, e uma dramaticidade Portisheadiana. Quando tacarem o rótulo no menino eu digo que som é esse. Ele andava ouvindo Maysa e quetais tempo desses. Portanto, a carga é do lado nublado da bossa, com o sol entrando porque tem que entrar mermo.
P.S.: O sonho que eu tenho com o Santa Cruz é esse sonho que a torcida do Santos tá tendo com os pirralhas da Vila.
P.P.S.: Ashes to Ashes, porque Bowie continua preso nas alturas do céu.
Postado originalmente em 08/02/2003
tatarecords@mail.com
22:43
SUNNY AFTERNOON
The taxman's taken all my dough
And left me in my stately home
Lazin' on a sunny afternoon
And I can't sail my yacht
He's taken everythin' I've got
All I've got 'this sunny afternoon
Save me save me save me
From this squeeze
I got a big fat momma
Tryin' to break me
And I love to live so pleasantly
Live this life of luxury
Lazin' on a sunny afternoon
In the summertime
My girlfriend's run off with my car
Had gone back to her ma and pa
Telling tales of drunkenness and cruelty
And now I'm sinnin' here sipping at my ice cold beer
Lazin' on a sunny afternoon
Help me help me help me sail away
Oh, give me two good reasons why I oughta stay
Cause I love to live so pleasantly
Live this life of luxury
Lazin' on a sunny afternoon
In the summertime
Ah, save me save me save me
From this squeeze
I got a big fat momma
Tryin' to break me
And I love to live so pleasantly
Live this life of luxury
Lazin' on a sunny afternoon
In the summertime
Ray Davies, iluminado do quilate de Bryan Wilson, defendendo a camisa dos Kinks, pelas bandas inglesas de 1966.
Postado originalmente em 08/02/2003
tatarecords@mail.com
22:42
ABOUT DEL
Cê já ouviu falar em Del Shannon? Pois bem... Shannon era uma caipirão lá das brenhas de Coopersville, em Michigan. Um dos melhores e mais originais rockers da história, era velho demais pr'os aborrecentes da época(os sessenta), feio como uma carranca e antes mesmo da bala-que-matou-Kennedy já cantava sobre abandono, perda e rejeição. Compositor de mão cheia, estava em perfeita sintonia com a Invasão Britânica, tanto que foi um dos poucos conterrâneos da besta do Bush a não fazer feio frente aos ingleses(na verdade, tornou-se imenso na Inglaterra, excursionando com John, Paul, George e Ringo em 63 e mantendo posteriormente sua carreira por lá). Não esqueça, o pop ainda tava aprendendo a andar, e seu andajá era limitado à ponte UK-USA.
Nosso herói era meio depressivo, condição patológica mesmo, e nessas de sofrer não conseguia deixar de ser intenso. Até nos roquinhos mais desalmados. Gostava dos acordes menores, tinha um senso melódico de partir o coração das piniqueiras de então e, melhor, era dono de um falsete do caralho. O que pontua seu clássico Runaway, de 61, 62, é talvez o mais conhecido das paradas populares do século XX. (é foda, entrei meio enviesado nesse terceiro milênio. ainda uso a agenda do ano passado)
Runaway é uma coisa séria. Começa com um riff que de tão inconscientemente assimilado vai ser mapeado qualquer hora dessas pelo genoma. Faça um teste e veja se cê num já nasceu com esse riff em alguma dobra do seu juízo. A melodia é arrupiante, como diria a mãe de Josimar, aquele simpático lateral da seleção, e culmina no refrão mais pá-de-cal da história de Coopersville:
I'm a-walkin' in the rain
Tears are fallin' and I feel the pain
Wishin' you were here by me
To end this misery
And I wonder
I wa-wa-wa-wa-wonder
Why
Ah-why-why-why-why-why she ran away
And I wonder where she will stay
My little runaway, run-run-run-run-runaway
Pra quem é jegue e num conhece o dialeto coopersvilliano, o cabra Charles Westover manda mais ou menos assim:
Tô aqui nesse toró
numa tristeza de dar dó
cê bem que podia 'tar aqui
pra essa uruca ter um fim
E me pergunto
E me-me-me-pergunto
Por que
pur-pur-pur-pur que ela se foi
e me pergunto pelo seu paradeiro
minha danadinha... aquela fujona... a minha danadinha...
Ah, Del...
Quando a gente pensa que c'est fini, vem um solo de um trocinho que deixaria outras tantas marcas na música pop, o Mmusitron. Um orgãozinho do mais fuleiro, "futurista", pra se raigá. Pra se estabacar no air organ. Os solos de então ou eram exuberantes rítmica ou melódica ou harmonicamente(ainda não tinham inventado a pirotecnia). Esse solo do Musitron então... É uma outra música .
Aí vem o refrão novamente e cabou.
Nosso herói poderia ter ficado por aí mesmo, mas não... Veja só: Hats Off to Larry, Little Town Flirt, Two Kinds of Teardrops, Kelly, Keep Searchin'(We'll Follow the Sun), Hey Little Girl, Cry My Self to Sleep, So Long Baby, Handy Man...
Já no fim da década, dedicou-se a produção de outros artistas, fazendo shows esporádicos, pra audiências devotas. E foi assim até ressurgir nos anois oitenta, com Sea of Love. Tava sendo cogitado pra substituir outro deus - o Chico Xavier cover, o cara que tomou do mesmo mel de uruçu que Marvin Gaye tomou, e ainda lambeu os dedos - Roy Orbison. Mas fala sério, Del Shannon era bom demais pra ficar em fila de espera. Cometeu suicídio na virada dos oitenta pr'os "cínicos anos 90", quando se matar nem tava rendendo tanto.
Coletâneas dos singles estão por aí, em recatada discrição, pra quem quiser se iniciar e "brincar de ser feliz". Mas a obra-prima de Del está escondida em outra década.
Live in England, gravado em 1972, é o disco de um cara do cacete em franca decadência; um cara cheio de marcas, com o falsete de diamante quase rachando, tocando sua guitarra simples como se os anos 90 fossem no dia seguinte. Começa com Hats Off to Larry e fecha com Runaway, progressivamente acelerada até o limite. Pelo caminho, quase todos os clássicos citados acima(sempre me pego perguntando porque o Velvet nunca fez cover de Little Town Flirt, perfeita pra voz de Lou Reed; do mesmo modo que não faço idéia do que impediu os Ramones de se apropriarem de Peggy Sue), mais a bela Swiss Maiden, Crying(aquela do deus Orbison), Answer to Everything(do maestro Bacará) e uma gréia chamada Coopersville Yodel.
A voz dele.
Tendo naturalmente se tornado mais grave com a idade(40 anos), a voz dele, nesse show, é de uma emoção que não está presente nos imaculados singles. É pela voz de Del que o disco vale à pena. Tá tudinho lá. O rock'n'roll, a menina impossível, os arrebatamentos possíveis com esses dois amores, a necessidade de ser casca-grossa e de andar na chuva sentindo a dor; o sentido da vida, enfim. Ou o rock foi feito pr'aquele senhor da Sun lavar a burra?
Ah, Del...
(feito ao som de quatorze audições de Sunny Afternoon)
Postado originalmente deus-sabe-quando.
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22:30
TEXTÍCULO INAUGURAL
Dispositivo Anti-Bloqueio: pau e orelhada em Caetano.
O cachorro mais morto da mpb sabe das coisas. Num mundo que assume de vez sua tara pela informação, o músico dos anos 70 revela seu talento em ser notícia, fazendo de cada intervenção sua uma ação em alta. Ele se ligou na onda e pulou dentro, sem esperar pelo resultado da discussão. Para o bem e (muito mais) para o mal, Caê enxerga mais do que nunca. Atualiza-se vertiginosamente, como nem eu nem você sonharíamos. O músico dos anos 70 tá mais pra software da Microsoft(nenhuma ironia) que pra gente.
E o músico nos anos 70? É aí que tá. Mesmo quem não compra as ações multimídia de Caê, há de fazer uso de algum badulaque da sua marca. Qualquer Coisa é um bom exemplo. Disco que começa mais afetado que nunca, com a resenha da faixa-título e segue com uma dispensável segunda música(tudo bem, clássico, mas um pé no ovo), acaba por se tornar um dos melhores discos de cover da história moderna. Ainda antecipa a moda dos discos de cover em época de vacas magras. "Madrugada", "Madrugada e Amor", "Jorge da Capadócia", "For No One", "Lady Madonna", "Flor de La Canela", "Drume Negrinha" e, vá lá, "Eleanor Rigby", são apresentadas em versões despojadas das famigeradas 'possibilidades de estúdio'. Violões, vocais, melodias e letras belíssimas que, junto com uma tendência noturna, dão ao disco a qualidade das melhores cantorias de ninar. Caê, o músico dos anos 70, o homem-software, dando uma de mãezona, botando todo mundo pra dormir. As interpretações são reconhecidamente cool, mas a proposta é de embalar as crianças. Clássico.
E viva Lobão.
Postado originalmente em 28/01/2003
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22:19

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